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10 junho 2009 

Breviário de leituras: No café da juventude perdida

No café da juventude perdida, Patrick Modiano

«Sentira perfeitamente que Louki era diferente dos outros. De onde viera, antes de lhe chamarem assim? Muitas vezes, os clientes do Condé traziam um livro na mão, que pousavam de forma negligente na mesa e cuja capa se encontrava manchada de vinho. Os Cantos de Maldoror. Iluminações. Les Barricades mystérieuses. Mas ela, de início, andava sempre de mãos a abanar. E depois, quis com certeza fazer como os outros e um dia, no Condé, surpreendi-a sozinha, a ler. A partir daí, o livro nunca mais a largou. Pousava-o bem em evidência no tampo da mesa, quando se encontrava na companhia de Adamov e dos outros, como se o livro fosse um passaporte ou uma autorização de residência que legitimava a sua presença ao lado dos outros. Mas ninguém lhe prestava atenção, nem Adamov, nem Babilée, nem Tarzan, nem la Houpa. Era um livro de bolso, de capa suja, daqueles que se compram em saldo nos cais e cujo título estava impresso em grandes caracteres vermelhos: Horizonte Perdido. Naquele tempo, este título não me dizia nada. Devia ter-lhe perguntado de que tratava o livro, mas pensei estupidamente que Horizonte Perdido representava para ela um acessório e que fingia lê-lo para se guiar pelo mesmo diapasão da clientela do Condé. Um transeunte que lançasse um olhar furtivo do exterior - e mesmo que apoiasse momentaneamente a testa contra o vidro - tê-la-ia considerado uma simples clientela de estudantes. Mas mudaria rapidamente de opinião ao reparar na quantidade de álcool que se ingeria à mesa de Tarzan, de Mireille, de Fred e de la Houpa. Nos tranquilos cafés do Quartier Latin, ninguém beberia assim. É verdade que, à tarde, nas horas mortas, o Condé podia iludir. Mas à medida que o dia avançava, tornava-se ponto de encontro do que um filósofo sentimental chamava "a juventude perdida". Porquê aquele café e não outro? Por causa da dona, uma Mme Chadly que parecia não se surpreender com nada e que manifestava mesmo uma certa indulgência para com os clientes. Muitos anos mais tarde, quando as ruas do bairro já só exibiam montras de estabelecimentos de luxo e uma marroquinaria ocupava o espaço do Condé, encontrei Mme Chadly na outra margem do Sena, a subir a rue Blanche. Não me reconheceu logo à primeira. Caminhámos lado a lado um longo momento a falar do Condé. O marido, um argelino, comprara o negócio depois da guerra. Lembrava-se dos nomes de todos nós. Costumava interrogar-se sobre qual teria sido o nosso futuro, mas nunca alimentara ilusões. Soubera desde o início que as coisas nos correriam mal. Cães vadios, disse ela. E, quando nos despedimos em frente da farmácia da place Blanche, confiou-me, fitando-me bem nos olhos: "Quanto a mim, quem eu preferia era a Louki".»
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