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09 abril 2009 

Poéticas, dia 3: «Lost in the supermarket»

Poéticas do Rock em Portugal: Perspectivas críticas de uma literatura menor

Entre uma cara amiga e poucas caras do meio (poucos jornalistas, quase nenhum músico, ainda menos «poetas do rock»), o último dia das Poéticas andou entre o rock n'rude e o rock enrole, entre Deus e o diabo, entre salas vazias e igrejas cheias ao domingo. Fica o relato possível, depois de três dias a discutir o impossível:


«E pelo segundo dia consecutivo, o tiro de partida para mais uma série de sessões sobre as Poéticas do Rock em Portugal foi dado ao som dos Xutos & Pontapés - desta vez, para o último dia de colóquio, o mote foi o álbum "Circo de Feras". Para olhar para o álbum dos Xutos editado em 1987 e para a "experiência da juventude no Cavaquismo", Luís Trindade contou a história de David, "um punk solitário do liceu de Queluz", que usava dois blusões de ganga com as capas dos discos dos Xutos desenhadas nas costas e que lhe deu a conhecer a banda, mas para quem a capa do "Circo de Feras" - por representar uma passagem ao "mainstream" - "já não mereceu um blusão". Foi esse o ponto de partida para uma análise que expôs as diferenças entre os Xutos de "Cerco" (um disco mais cru e literal) e os Xutos de "Circo de Feras" (mais subtil e denso, revelador de uma nova maturidade) e da passagem da banda de "Contentores" de um período alternativo, onde representavam a revolta da juventude portuguesa, para um período mais comercial, que os viu renderem-se, afinal, à "vida normal".

Depois dos Xutos, a conversa virou-se para o teatro - mais precisamente para três espectáculos que têm no rock um protagonista ou um fio condutor: "Lilás", de Jon Fosse, "Rock 'N'Roll", de Tom Stoppard, e "Fucking and Shopping", de Mark Ravenhill. Três peças que, segundo Rui Pina Coelho, olham de forma diferente para o rock (seja como forma de acalmar conflitos, seja como guia da História, ou como mero objecto de consumo) e que mostram a própria evolução do rock e da forma como o encaramos hoje ("tanto uma celebração da liberdade como uma mera indústria").

Ainda pela manhã, houve tempo para olhar para a relação do rock com Deus - nomeadamente através da música de Tiago Guillul ("menos Padre Borga e mais António Variações", como disse Luís Filipe Cristóvão) - e com a lírica clássica grega - afinal, como sugeriu André Simões (mais habituado a concertos onde "está tudo sentadinho", como confessou), o rock, como "a raposa, muda a pelagem mas não os costumes" e os temas que canta são, no fundo, os mesmos que se cantavam na Grécia Antiga ou na Idade Média.

Pela tarde, falou-se dos Gift, do hip-hop português, dos Belle Chase Hotel e, mais uma vez, de Rui Reininho.

A fechar os três dias de colóquio, a segunda mesa-redonda reuniu Tiago Guillul, o encenador João Garcia Miguel (que trabalhou com os Xutos), o realizador Manuel Mozos e o editor Luís Futre (da Groovie Records), a quem se juntou, mais tarde, Manuel João Vieira, para falar do "Rock nas Artes". Talvez por se confessar pouco dado à auto-análise, Guillul foi o mais provocador ("não posso imaginar coisa menos rock n'roll do que um músico a falar de rock n'roll numa universidade"), mas também Luís Futre arrancou alguns olhares de espanto à plateia ao lembrar que "o rock português nasceu em 1955" e não nos anos 80 - o que levou a curioso diálogo: depois de Futre lembrar que o pai do rock português não é Rui Veloso, um elemento da plateia sugeriu, citando um autor brasileiro, que "o Diabo é o pai do rock", ao que Manuel João Vieira acrescentou "o Diabo é o Vítor Gomes" (o vocalista dos Gatos Negros, mítica banda dos anos 60).

Manuel João Vieira foi outro dos protagonistas da sessão, não só pela sua chegada atabalhoada (atrasado, sentou-se no meio do público e, quando ocupou o seu lugar na mesa, não deixou de perguntar "sobre o que é esta mesa redonda?"), mas sobretudo por lembrar que, na sua experiência de músico e artista-plástico, "arte e pop são como óleo e água: não se misturam". Foi dele também a questão que ficou no ar, em tom de conclusão: porque é que "nós estamos sempre a pedir às artes que faça apareçer qualquer coisa nova em vez de pedirmos às artes qualquer coisa boa"?

E foi assim, em tom de provocação, que terminaram estes três dias em que o rock voltou à universidade.»


(@ Blogue da 3)

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