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27 setembro 2009 

Tjedna Hrvatska: notas de viagem

A TAP continua a fazer todos os possíveis para ser a melhor companhia aérea do mundo: os vôos são sempre os mais atrasados, os pedidos de lugares específicos conseguem ser sempre baralhados (e ai as minhas pernas, que lá vão mais uma vez encolhidas!) e a «refeição leve» é sempre um mimo (desta vez, meia sandes de nhanha de cebola passada que era um autêntico fiasco).

O aeroporto de Zagreb é pequeno, velho, feio, antigo e pouco confortável. Mas as malas chegaram ao tapete antes de nós. Aos primeiros contactos, os croatas não primam pela simpatia nem pela educação. Mas a sandes de prsut, deliciosa, compensou a espera e a antipatia.

À primeira vista, confirma-se o mito: as croatas podem não ser todas podres de sensuais ou elegantes como o milho, mas todas têm qualquer coisa de extremamente cativante.

Tal como Dubrovnik, uma cidade apaixonante e arrebatadora, desde o primeiro passeio pela rua principal à última caneca de cerveja para lá das muralhas. E no entretanto, o melhor de Dubrovnik está nas tascas escondidas entre as esplanadas cheias de turistas italianos e espanhóis, está nas geladarias com montanhas de gelado à espera de um cone, está nas ruelas esconsas e nas muralhas junto ao mar, está num ambiente fascinante que faz da Dubrovnik uma cidade onde apetece, simplesmente, estar.

A água do Adriático é tão azul, tão límpida, tão apetecível, que qualquer recanto serve para um mergulho e no mais impossível dos rochedos existe uma praia improvisada.

A comida croata não é muito variada nem original por demais (é basicamente peixe), mas a meia dúzia de pratos que têm são um tributo à arte de bem comer. O resto são as pizzas, as massas, os arrozes - heranças de um reino que nascia em Veneza e acabava em Dubrovnik.

Aparentemente, a Croácia ficou do melhor lado do Adriático: não só o mais recortado, mas o que as correntes favorecem, já que «levam todo o nosso lixo para Itália».

A música popular croata é uma mistura de Demis Roussos com Graciano Saga. Para pior.

A caminho da pequena e pitoresca Korčula, Ston é uma cidade tão feia e desinteressante quanto monumental e enigmática é a enorme muralha que a separa do resto da península. Dizem os locais, com orgulho, que os seus cinco quilómetros e meio fazem dela a segunda maior muralha do mundo.

Entre Dubrovnik e Split, há-que atravessar nove quilómteros de Bósnia-Herzegovina. Nesses nove quilómetros por um país que há 10 anos era o inimigo, apenas uma cidade: Neum, estância turística para croatas menos endinheirados. Não fosse o aspecto de desolação geral e o ar militarista dos guardas de fronteira do lado bósnio, nada nos diria que não estávamos na Croácia.

Split é uma cidade europeia igual a tantas outras: largas avenidas, altos prédios, gente apressada - enfim, nada que a distinga. Nada, a não ser um dos mais antigos e bizarros centros históricos da humanidade.

Em cada esquina, um frizerski salon: Trogir é a cidade com maior número de cabeleireiros de toda a Croácia. E geladarias e esplanadas também. E sempre cheias, as geladarias e as esplanadas.

Parece que onde quer que se esteja, para onde quer que se vá, qualquer sítio onde se pare é Património da UNESCO.

Depois de cidades-ilhas rodeadas de História, de mar até perder de vista, de barcos pequenos e grandes e cheiro a maresia nas ruas e nos pratos, chegados ao interior, a Croácia transforma-se noutro país: passados os quase seis quilómetros de túnel, saímos no meio de um país verde, uma espécie de postal-ilustrado de uma Europa Central cheia de montes e vales e prados e vacas e mel e quartos para alugar.

E no meio de tudo isto, escondem-se os Plitvička jezera, 12 lagos - uns mais pequenos, outros intermináveis - com 12 tonalidades diferentes de azul e verde, dezenas de cascatas e cataratas e uma água tão límpida e fresca quanto a do Adriático que ficou para trás.

A feia e escura cidade de Karlovac é um monumento real à História da Croácia, com o seu ar de cidadezinha típica de uma velha Europa de Leste e os seus edifícios ainda esburacados pelas balas da última guerra.

Afinal, Zagreb é que é a cidade com maior número de cabeleireiros, geladarias e esplanadas de toda a Croácia. E sapatarias também.

A arquitectura da cidade é uma manta de retalhos - velhos prédios monumentais escurecidos pelo tempo entalados entre edifícios antigos de cara lavada e construções de um mau gosto contemporâneo não escondem que Zagreb vive entre a memória de uma cidade fechada mas com História e a ambição de uma capital europeia, que se quer aberta e moderna.

Do ponto de vista de um terrorista, Zagreb sairá barato a quem a queira ameaçar: o parlamento, a sede do governo e a presidência da república são na mesma praça, à volta da igreja de São Marcos, com o seu telhado feito de Lego e ar de feita a brincar.

Give me all your money, exige o autocolante no balcão da bilheteira da torre de Lotrščak. Atrás do balcão, estendido num sofá, um rapaz de óculos e carapinha alourada lê um livro de Kafka enquanto ouve heavy-metal a altos berros. Nas colunas da aparelhagem, outro autocolante: Music keeps me sane.

O centro histórico de Zagreb vê-se numa tarde. Mas sabe bem ver passar o tempo e as pucas em qualquer uma das centenas de esplanadas espalhadas pela Cidade Alta.

E em cada esquina, uma escultura monumental, uma estátua antiga, uma obra de arte moderna.

Piada seca, brejeira, verdadeiramente misógina e absolutamente indigna (mas óbvia, ao fim de dois dias): se os habitantes de Zagred são zagrebinos, as habitantas de Zagreb são zagreboas.

(Como seria de esperar, no regresso, só o vôo da TAP saiu atrasado. À chegada a Lisboa, a primeira mala só demorou meia-horinha a chegar. Assim até dá gosto ouvir falar nas suas greves.)
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