25 novembro 2009 

Take back the city

O Royal Albert Hall por dentro e por fora. O Hyde Park de um lado ao outro. Oxford Street e Carnaby Street e Picadilly Circus e Leicester Square à noite. O Big Ben e o Parlamento e o London Eye e a Tower Bridge à pressa. Covent Garden e a Abbey Road para a fotografia. O Now 74 em primeiro e a SuBo em segundo. O David Byrne e a Nico e os Grizzly Bear e os Wild Beasts na bagagem. Um curso intensivo de Londres e um concerto surpreendente em tão boa companhia. Assim, vale a pena.
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27 setembro 2009 

Tjedna Hrvatska: notas de viagem

A TAP continua a fazer todos os possíveis para ser a melhor companhia aérea do mundo: os vôos são sempre os mais atrasados, os pedidos de lugares específicos conseguem ser sempre baralhados (e ai as minhas pernas, que lá vão mais uma vez encolhidas!) e a «refeição leve» é sempre um mimo (desta vez, meia sandes de nhanha de cebola passada que era um autêntico fiasco).

O aeroporto de Zagreb é pequeno, velho, feio, antigo e pouco confortável. Mas as malas chegaram ao tapete antes de nós. Aos primeiros contactos, os croatas não primam pela simpatia nem pela educação. Mas a sandes de prsut, deliciosa, compensou a espera e a antipatia.

À primeira vista, confirma-se o mito: as croatas podem não ser todas podres de sensuais ou elegantes como o milho, mas todas têm qualquer coisa de extremamente cativante.

Tal como Dubrovnik, uma cidade apaixonante e arrebatadora, desde o primeiro passeio pela rua principal à última caneca de cerveja para lá das muralhas. E no entretanto, o melhor de Dubrovnik está nas tascas escondidas entre as esplanadas cheias de turistas italianos e espanhóis, está nas geladarias com montanhas de gelado à espera de um cone, está nas ruelas esconsas e nas muralhas junto ao mar, está num ambiente fascinante que faz da Dubrovnik uma cidade onde apetece, simplesmente, estar.

A água do Adriático é tão azul, tão límpida, tão apetecível, que qualquer recanto serve para um mergulho e no mais impossível dos rochedos existe uma praia improvisada.

A comida croata não é muito variada nem original por demais (é basicamente peixe), mas a meia dúzia de pratos que têm são um tributo à arte de bem comer. O resto são as pizzas, as massas, os arrozes - heranças de um reino que nascia em Veneza e acabava em Dubrovnik.

Aparentemente, a Croácia ficou do melhor lado do Adriático: não só o mais recortado, mas o que as correntes favorecem, já que «levam todo o nosso lixo para Itália».

A música popular croata é uma mistura de Demis Roussos com Graciano Saga. Para pior.

A caminho da pequena e pitoresca Korčula, Ston é uma cidade tão feia e desinteressante quanto monumental e enigmática é a enorme muralha que a separa do resto da península. Dizem os locais, com orgulho, que os seus cinco quilómetros e meio fazem dela a segunda maior muralha do mundo.

Entre Dubrovnik e Split, há-que atravessar nove quilómteros de Bósnia-Herzegovina. Nesses nove quilómetros por um país que há 10 anos era o inimigo, apenas uma cidade: Neum, estância turística para croatas menos endinheirados. Não fosse o aspecto de desolação geral e o ar militarista dos guardas de fronteira do lado bósnio, nada nos diria que não estávamos na Croácia.

Split é uma cidade europeia igual a tantas outras: largas avenidas, altos prédios, gente apressada - enfim, nada que a distinga. Nada, a não ser um dos mais antigos e bizarros centros históricos da humanidade.

Em cada esquina, um frizerski salon: Trogir é a cidade com maior número de cabeleireiros de toda a Croácia. E geladarias e esplanadas também. E sempre cheias, as geladarias e as esplanadas.

Parece que onde quer que se esteja, para onde quer que se vá, qualquer sítio onde se pare é Património da UNESCO.

Depois de cidades-ilhas rodeadas de História, de mar até perder de vista, de barcos pequenos e grandes e cheiro a maresia nas ruas e nos pratos, chegados ao interior, a Croácia transforma-se noutro país: passados os quase seis quilómetros de túnel, saímos no meio de um país verde, uma espécie de postal-ilustrado de uma Europa Central cheia de montes e vales e prados e vacas e mel e quartos para alugar.

E no meio de tudo isto, escondem-se os Plitvička jezera, 12 lagos - uns mais pequenos, outros intermináveis - com 12 tonalidades diferentes de azul e verde, dezenas de cascatas e cataratas e uma água tão límpida e fresca quanto a do Adriático que ficou para trás.

A feia e escura cidade de Karlovac é um monumento real à História da Croácia, com o seu ar de cidadezinha típica de uma velha Europa de Leste e os seus edifícios ainda esburacados pelas balas da última guerra.

Afinal, Zagreb é que é a cidade com maior número de cabeleireiros, geladarias e esplanadas de toda a Croácia. E sapatarias também.

A arquitectura da cidade é uma manta de retalhos - velhos prédios monumentais escurecidos pelo tempo entalados entre edifícios antigos de cara lavada e construções de um mau gosto contemporâneo não escondem que Zagreb vive entre a memória de uma cidade fechada mas com História e a ambição de uma capital europeia, que se quer aberta e moderna.

Do ponto de vista de um terrorista, Zagreb sairá barato a quem a queira ameaçar: o parlamento, a sede do governo e a presidência da república são na mesma praça, à volta da igreja de São Marcos, com o seu telhado feito de Lego e ar de feita a brincar.

Give me all your money, exige o autocolante no balcão da bilheteira da torre de Lotrščak. Atrás do balcão, estendido num sofá, um rapaz de óculos e carapinha alourada lê um livro de Kafka enquanto ouve heavy-metal a altos berros. Nas colunas da aparelhagem, outro autocolante: Music keeps me sane.

O centro histórico de Zagreb vê-se numa tarde. Mas sabe bem ver passar o tempo e as pucas em qualquer uma das centenas de esplanadas espalhadas pela Cidade Alta.

E em cada esquina, uma escultura monumental, uma estátua antiga, uma obra de arte moderna.

Piada seca, brejeira, verdadeiramente misógina e absolutamente indigna (mas óbvia, ao fim de dois dias): se os habitantes de Zagred são zagrebinos, as habitantas de Zagreb são zagreboas.

(Como seria de esperar, no regresso, só o vôo da TAP saiu atrasado. À chegada a Lisboa, a primeira mala só demorou meia-horinha a chegar. Assim até dá gosto ouvir falar nas suas greves.)
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18 março 2009 

Paris: notas de viagem

Marais, Mars 09 Marais, Mars 09
Marais, Mars 09 Marais, Mars 09

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29 outubro 2008 

Up and down, in Halloweentown

A mais politicamente incorrecta e herege de todas as estações do metro londrino é a de St. John's Wood.

À saída do metro, a acanhada Beatles Coffee Shop vende «official Beatles mercandisise», «fresh food» e «hot and cold drinks».

Sábado à noite, à porta de uma discoteca em Piccadilly, três cheerleaders, um viking, a Abelha Maia e a Mulher Maravilha esperam para entrar. Do outro lado da rua, no balcão de um diner à americana, o Super-Homem bebe um café. Diz que vem aí o Halloween.

Globalização é... três portugueses a almoçarem numa tasca árabe em Londres enquanto vêem o Chelsea - Liverpool com relato em francês, antes de uma conferência organizada por americanos.

À noite, outra vez o Super-Homem, a descer, discretamente, as escadas rolantes do metro de Baker Street.

Num jantar de recepção, perante uma plateia de profissionais da rádio que não lhe estão a ligar nenhuma, Jay Jay, o músico de serviço, canta «I'm easily forgotten». Quando Mica Paris sobe ao palco, pouco depois, alguém pergunta «como é se chamava o rapaz que tocou antes?»

Segunda-feira, dia de trabalho, noite de música: Snow Patrol na universidade e, na volta, um passeio por Abbey Road.

De regresso, no mesmo avião, representantes dos quatro grandes grupos de rádio nacionais. Discretamente, alguém sugere: «se este avião cair, acaba a rádio em Portugal».
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13 outubro 2008 

«Tudo é diferente / no Cairo quente» (notas de viagem)

Diz que, no Egipto, Manuel José, o treinador português, é mais conhecido que Mubarak, o presidente. «Tem 40 milhões de fãs».

A saída para Gizé é às sete da manhã. Não que seja longe. É que na rua, às sete da manhã estão já perto de 30 graus.

As Pirâmides de Gizé foram construídas longe do Cairo e à beiro do Nilo. Entretanto, o Nilo baixou e o Cairo cresceu. Hoje, as Pirâmides de Gizé estão longe do Nilo e à beira do Cairo.

Diz que a melhor vista da Esfinge de Gizé é do terraço do Pizza Hut.

Há quem diga que não há imagem mais apaixonante que o pôr-do-sol no Cairo. Infelizmente, não é fácil ver o pôr-do-sol no Cairo através da neblina, misto de calor e poluição.

O trânsito no Cairo é indescritivelmente caótico. Não interessam os sinais, os riscos no chão, as passagens de peões, os polícias sinaleiros, os piscas. Há sempre espaço para mais um e o melhor amigo do condutor egípcio é a buzina.

O maior perigo que há no Cairo não são os assaltos nem o calor. É atravessar a rua. O truque não é esperar por uma aberta ou procurar uma passadeira. O truque é não hesitar.

Cairo by night é uma imensa feira, com luzes de néon, cheiro a shisha e barquinhos de choque.

Segundo o guia, Hassan, o melhor restaurante do Cairo é o Abou Tarek, uma tasca que só serve koshari e que diz à porta «we have no other branchs».

O Museu Egípcio é um verdadeiro armazém, um gigantesco amontoado de cinco mil anos de história. Seriam precisos vários anos para ver todas as peças uma a uma. E é impossível uma visita sem um guia, tal a escassez de informação e de organização do Museu.

Na mesquita de Muhammed Ali, Hassan fala-nos de uma troca curiosa: a torre do relógio da Cidadela do Cairo (cujo relógio nunca funcionou) foi oferecida pela França ao Egipto a troco de um dos obeliscos do Templo de Luxor (hoje na Praça da Concórdia, em Paris). O guia conta-nos, ironicamente, de como os egípcios trocaram um dos mais importantes e imponentes dos seus milenares monumentos por um relógio avariado...

Perguntamos «quantos habitantes tem o Cairo?». Responde o Hassan: «28 de manhã, 23 à noite». Em milhões. São os cinco milhões que, todas as manhãs, bem cedo, vêm à capital para tratar de burocracias.

O Vale dos Reis, o cemitério dos faraós na antiga Tebas, é dos cenários mais impressionantes que se podem encontrar. Vale a pena penar ao sol abrasador por entre milhares de turistas para ver esta pequena cidade de túmulos no meio do deserto.

Impressionantes são também os Colossos de Mémnon, um par solitário de estátuas faraónicas, como que esquecidas à beira da estrada, no meio de um planalto verdejante entre o deserto e o Nilo.

A cidade de Luxor é um autêntico estaleiro de arqueologia. Diz que entre os dois templos em cada ponta da cidade, há dois quilómetros de pequenas esfinges por desenterrar.

No Egipto há três canais de videoclipes (que quase só passam música árabe), mas não há lojas de discos. Há algumas bancas de «music hites» que vendem cassetes e CDs piratas.

Sharm El-Sheik pode ser a Albufeira do Médio Oriente. Mas não há melhor mar para mergulhar que o Mar Vermelho.

Não há aeroporto mais caótico, desorganizado, sujo, quente e feio do que o aeroporto do Cairo.

No Egipto não há obras, há escavações...
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14 setembro 2008 

Viagens na minha serra

A recato da casa dos Matos e o recanto cor de terra. As voltas perdidas rendidas aos petiscos da D' Maria. A beleza serena das grutas (e a pequenez tacanha de um velho centro turístico parado no tempo). O arroz de pato da Tia Alice (e a morcela e o leite-creme e a simpatia). As pegadas dos dinossauros (e «o maior trilho de saurópodes do mundo» completamente às moscas). O recato e as migas e os licores dos Matos. E o resto do mundo aqui tão perto...

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04 setembro 2008 

Operation K

Quatro dias para duas entrevistas e dois discos quase novos (um que promete ser bom, um que se confirma mauzinho). Pelos entretantos, às voltas por uma cidade que a cada regresso revela novos recantos e encantos renovados, entre as lojas de sempre e túneis de paredes vivas, entre a banda-sonora do trabalho e as músicas que se procuram no tempo livre. Mas, estranha novidade, no fim do dia, o que se procurou foi só mais um olá, mais um adeus, mais uma palavra para matar uma saudade nova, inesperada, desconhecida... Uma saudade que tornou a cidade - aquela cidade sempre tão cheia, tão alegre, tão viva - um pouco mais vazia, um pouco mais distante, um pouco mais só.

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23 maio 2008 

Viva la vida

Ir, trabalhar e voltar a correr. E nem ter sequer tempo para saborear a coisa mais rara: uma tarde de sol em Londres! (E ainda assim, entre o check-in e o embarque, conseguir enfiar na bagagem Leonard Cohen, Stephen Colbert e William Shatner.)
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01 maio 2008 

De feriado a feriado

Por lá, o Boris e o Ken. Por cá, o Santana e a Manela. Por lá, as eleições e a Champions League. Por cá, as manifestações e a praia. Por lá, a chuva e o frio. Por cá, o sol e um pouco mais de calor. Por lá, os Portishead e todos os livros do mundo. Por cá, os cromos do costume e nem uma boa notícia na manchete. Por lá, o Doctor Who no Earl's Court, os donuts em Picadilly e uma mesa no Starbucks da Borders para deixar passar a chuva. Por cá... o sol e um pouco mais de calor.
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03 março 2008 

Breviário de fitas: um cálice de Fantas (notas de viagem)

«- This is not real...
- Fuck reality!
»

(Chegar. O Cantar de Sophia pela 31 de Janeiro acima. Um croissant misto a dizer bem-vindos e...)

...uma colheita de Shrooms irlandeses com muito bom ar mas pouca moca, cozinhados à lá teen-horror amador: boas ideias espapassadas entre bocejos e estranhos ângulos de uma câmara mais preocupada com o cleavage da protagonista do que com o rumo da história.

(No Cine Águia, à Batalha, anuncia-se «Noite Na Terra - e a seguir: E Tudo O Rio Levou».)

Um hilariante western-teriyaki série A a fazer de B, pincelado a Bollywood com samurais e Tarantino no ecrã a fazer de actor. Depois de Sukiyaki Western Django, os filmes de cáubois nunca mais serão os mesmos!

(E as curtas, as promissoras curtas, que foram relegadas para a sala pequena... Ora bolas.)

De Espanha, a câmara no [REC] e o terror em loop, em mais uma injecção de adrenalina pura de Jaume Balagueró, ao jeito de Cloverfield meets Noite dos Mortos-vivos meets Outbreak, mas com menos dinheiro e mais história, mais emoção, mais humor, mais sustos e mais... zombies, serão zombies?

(Noite...
...Dia. Finos e francesinhas no Canal 3, uma tarde perdida em Serralves e...)

...uma curta-metragem para esquecer (como é se chamava, mesmo?). Agora sim, eis o tão aguardado Teeth! Ou não? Será que não? Ó raios, não... Venha então esse Aparecidos e «que sofram tanto a vê-lo como nós sofremos a fazê-lo». Está certo, mas - apesar de uma excelente estória, de um argumento verdadeiramente surpreendente, do ambiente a negro e medo e das belas paisagens argentinas - a partir de meio, o que faz sofrer é mesmo o cansaço e um final pintado ao mais banal cliché hollywoodesco.

(E as cadeiras do Rivoli? Raispartam as cadeiras do Rivoli...)

De uma estopada quase boa para um curto episódio de esquizofrenia psicotrópica: Breath é, no mímino, bizarro. Entre a história de amor absurda e o conto poético-surreal, o novo de Kim Ki-duk é um pedaço de tro-la-ró alucinado a viajar na maionese.

Para a sobremesa, prato cheio: Peekers (pura patetice), Found Objects (bonito mas oco) e, hélas, o regresso do mestre! Tantos anos depois, Dario Argento continua tão bestialmente mau e tão terrivelmente divertido como poucos (e Asia, a filha, continua a deixar-se filmar de forma... preocupante... pelo seu próprio pai - e a mostrar porque é não vingou em Hollywood). Mother of Tears é verdadeiro gore série Z, com litros e litros de sangue vermelho demais, diálogos sem sentido, bruxas saídas das páginas centrais de uma Playboy de há 20 anos e actores em estado de choque. Como seria de esperar, é tão mau, tão mau, que é de chorar por mais.

(E no regresso, a dúvida: como é que há pessoas que conseguem passar uma viagem de comboio inteira sem se calar um minuto que seja? Quase três horas de blá-blá em contínuo? Não é fácil...)
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08 fevereiro 2008 

De la neu a la diagonal (notas de viagem)

Passando Badajoz, a caminho de Madrid, chegam terras de nome curioso - de Miajadas a Deleitosa, de Torrecillas de la Tiesa a La Almunia de Doña Godina...

E um haiku em cada mirada:
«Para su seguridad
control
de velocidad»

Mil e tal quilómetros e um dia de viagem depois, a paragem em Lleida faz-se numa tasca aberta para festejar a vitória do Real Madrid. Estranho: é isto a Catalunha?

«É um tirinho, é daqui a Peniche.»

Andorra é um país tão pequeno que só tem uma estrada que atravessa o país de uma ponta à outra, de Espanha a França. Velocidade máxima na única estrada, na tão estreita estrada: 80! Percebe-se: se desse para andar mais depressa, saía-se do país sem se dar por isso...

À entrada no pequeno país, as cidades seguem-se sem acabarem nem começarem - ainda não saímos de uma, já estamos a entrar na outra.

A língua oficial é o catalão. As oficiosas, o espanhol e o francês. Mas aparentemente, a mais falada é... o português! Em cada supermercado, em cada restaurante, em cada paragem, há um português. Diz que é a maior comunidade emigrante em Andorra. Pois: se uma empregada de supermercado ganha 1500 euros e um trolha, 3000...

O Caldea não é bem um spa nem só uma piscina. É um centro termolúdico nascido de um filme sci-fi: por fora parece a torre de Sauron, por dentro é a fortaleza gelada de Super-homem. E, de hora a hora, tem direito a uma Utopia própria.

Há uma dúvida estranha que passa pela cabeça de quem está num jacuzzi ao ar livre, à noite, no meio dos Pirinéus cheios de neve. E não é «que raio faço eu aqui?» É mais «ó mãe, temos mesmo que ir embora?»

E ao terceiro dia, o gozo, a diversão... e a viagem ao Centro Médic. Lá, um enfermeiro saído de um ringue de wresting que fala uma mistura de catalão e francês, decide que a melhor coisa para curar uma parameniscistis é uma espécie de depilação forçada! Para compensar, toma lá uma manga nova para tratar da sinovitis.

No Centro Médic, apesar da simpatia e do profissionalismo, é mais fácil perceber as legendas em latim dos quadros expostos do que a espécie de linguagem que as enfermeiras trocam entre elas.

E quem diz mal das tardes da televisão portuguesa, é porque nunca passou uma tarde a ver televisão espanhola! Duas coisas tem a seu favor: sempre é mais animada e tem a Patrícia Conde...

«Coxo e bêbado, pá. Coxo e bêbado».

A comida de Andorra é uma espécie de mistura entre a boa cozinha espanhola e a nova cozinha francesa. Em restaurantes com nomes como N'Goro N'Goro!

«Olha que há aí cenas mais fixes».

O Supermercat de El Tarter oferece um pouco de tudo a provar: dos melhores enchidos aos licores mais viciantes - dava para jantar. Ao lado, fabrica-se todo o tipo de bebidas alcoólicas e perfumes: desde um vinho do Porto que parece mesmo verdadeiro até ao Chanel mais pomposo a preço de copo de água.

E para a despedida, a neve branqueia a noite. De manhã, nem uma estrada cortada, nem uma rua intransitável. Ainda o sol não nasceu e já os limpa-neves limpam a país.

A viagem entre Andorra e Barcelona faz-se por uma Catalunha perdida, de aldeias da cor da terra e de fábricas em ruínas.

Felizmente, Barcelona continua igual: sempre diferente a cada regresso (a "magna pila" domina agora a Diagonal).

É nas paredes que está o melhor de Barcelona: «La belleza es tu cabeza», diz um graffiti. «Vomita tu ser», diz um outro. «Que es una ciudad?», pergunta outro. «Queremos color», reivindica ainda outro. E toda a Barcelona é uma parede cheia de vida.

O CaixaForum é tudo aquilo que a sede da nossa Caixa Geral de Depósitos podia, aliás, devia ser. Cheio de exposições interessantes e de gente de todas as idades. É uma tarde bem passada. E é de borla!

E é lá que está, até 27 de Abril, «Chaplin en imatges», uma das melhores exposições sobre cinema que este breviário já viu: emocionante, não só pelas gargalhadas das crianças, mas sobretudo pela comoção dos mais velhos.

Confere: as melhores tapas de Barcelona são no La Flauta, perto da Universidade.

Mais um dia, mais uma viagem: de Barcelona a Zaragoça, a paisagem é quixotesca; daí a Madrid, tem algo de western épico; e até Lisboa, já só cheira a querer chegar. Afinal, 1200 quilómetros num dia não são assim tão longe.

No enorme restaurante La Bodega, nos arrabaldes de La Almunia de Doña Godina, é proibido fumar. Mas há uma pequena sala para fumadores. É na cave. Sem janelas.

«Então e mais filmes? Ou séries, também pode ser séries.»
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29 outubro 2007 

Mais perto de coisa nenhuma do que do que quer que seja (notas de viagem)

Por mais país que se percorra, Évora será sempre Évora...

À beira da cidade, um anúncio de saúde pública acaba com a seriedade do assunto: «Dificuldade em falar? Ligue 112».

No centro do Alvito, as ruas têm nome de coisa: Rua das Manhãs, Rua dos Lobos, Travessa dos Vidros, Travessa do Prior da Lampreia, Praça do Relógio...

Com bom tempo e tempo para olhar, a viagem entre Alvito, Cuba, Beja, Mértola, Minas de São Domingos, Serpa e Vidigueira é de uma beleza esmagadora.

Portas meias com o mercadinho de Mértola, o restaurante Migas é apertado mas atrai o apetite. Metros antes, o café Guadiana recebe de braços abertos numa esplanada que convida à preguiça.

O Viva Velha, na Vidigueira, vale bem a viagem: é, provavelmente, um dos melhores restaurantes do Alentejo - no menu, na garrafeira e na decoração.

Já o Bar Alentejano, em Montemor-o-novo, não é bar mas é, definitivamente, alentejano. Fora isso, poderia entrar no clube do anterior.

Se uma carta de vinhos fosse lista de Natal, a minha teria Altas quintas e Olhos de mocho para o desafio, um Vila dos Gamas aragonês para não ir a mais lado nenhum e um trincadeira ACB para fechar a conta. O resto é parra...
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13 outubro 2007 

Pura vida (notas de viagem) [work in progress]

A viagem para a Costa Rica não se faz mal. Mas talvez se fizesse bem melhor se não fosse pela Iberia: a companhia espanhola tem o pior serviço, a pior comida, a maior falta de educação e civismo e as hospedeiras mais feias de toda a história da aviação mundial!

San Jose de Costa Rica é uma capital feia, mas cheia de vida. As ruas não têm nome: tirando a Avenida Central, todas as outras são numeradas e as ruas entre elas são uma incógnita.

Apesar de ser um país democraticamente estável e ecologicamente atento e de nem sequer ter um exército, ainda se encontram velhas palavras de ordem escritas pelos muros da capital. A mais marcante: «MAS POESIA. MENOS POLICIA.»

No meio de uma selva saída dos melhores filmes, Tortuguero é um género de paraíso na costa caribeña da Costa Rica. Para lá do calor abrasador e das melgas, há toda um manual vivo de ciências da natureza de um lado e outro da estreita península. Boas vistas e boa comida tornam o clima mais ameno.

Poucas imagens serão mais comoventes e reveladoras do que a de uma tartaruga com várias dezenas de anos, metro e meio e mais de cem quilos a pôr, pausadamente, dezenas de ovos, a tapá-los cuidadosamente no enorme ninho de areia e a voltar ao mar decidida, mas com a calma que o peso e a idade lhe exigem. Não é como ver uma cadela dar à luz uma ninhada de cachorros: é ver um dinossáurio prolongar a espécie sem olhar para trás, sabendo que sobreviveu a tudo, mas que dificilmente sobreviverá ao Homem.

E do outro lado, há macacos uivadores no topo das árvores, há preguiças a dormir, há crocodilos à espreita e um caimão mesmo à beirinha da água, há iguanas e lagartos de todas as cores, há lontras a caçar e manatins escondidos, há tucanos e anhingas e jacanas e tantas aves e não sei quantas borboletas e rãs impossíveis de contar, há um "Jesus Christ lizard" e um "Poison dart frog" e uma "Blue morpho", há animais a mais para caberem na memória e no cartão da máquina fotográfica...

Diz que os melhores restaurantes de Tortuguero são o Miss Miriam's e o Miss Junie's. Mas onde se come melhor é na Dorlings Bakery, na rua principal da aldeia - na única rua da aldeia...

O aeroporto de Tortuguero é o mais pequeno do mundo (um balcão, duas mesas, seis cadeiras e uma casa-de-banho) e parece saído de um filme de aventuras. O aeroporto abriu para o nosso vôo e quando o nosso pequeno autocarro com asas se fez ao ar, o aeroporto fechou.

Na Costa Rica só há duas estações: Verão e Verão com chuva.

Na estrada, são muitas as mensagens religiosas («Dios bendiga tu camino» é a mais comum). A caminho de La Fortuna há um lodge cristão e um resort israelita. À entrada da vila fica o Jehova Nissi Hostel.

Em todo o mundo, há Hard-Rock Cafés. Em La Fortuna, à sombra do vulcão Arenal, existe o Lava Rocks Café. E uma 'soda' chamada Chelas Bar.

O espanhol da Costa Rica perdeu os R's, vítima do excesso de americanos: o inglês é praticamente a segunda língua do país.

A viagem entre Arenal e Monteverde é belíssima mas uma aventura digna de Bruce Chatwin no Paris-Dakar: depois de 100 quilómetros de curvas em alcatrão esburacado, há mais 40 quilómetros de terra, lama, rochas e calhaus.

(...)

A via Panamericana é a única auto-estrada do país. São centenas de quilómetros de norte a sul da Costa Rica, com uma via para cada lado, muitos buracos e sem berma. Por cá, não seria sequer uma estrada nacional. Lá, é a melhor estrada, o percurso mais concorrido e também o mais lento e esfarrapado. Fazer 200 quilómetros na Panamericana é uma espécie de longo e fastidioso desafio.

A Costa Rica é um festim de personagens interessantes: Kurt, o alemão mais simpático de San Jose; Darryl, o canadiano biólogo, guia apaixonado e anfitrião competente em Tortuguero; o casal do Montana e as duas filhas, a meio de quatro meses de férias, que começaram com um mês a aprender espanhol; Roberto, o sueco filho de italianos que viaja pelo mundo de mochila às costas e câmara em punho; Jaime e Hugo, os dois irmãos, norte-americanos de Puerto Rico, aventureiros e com vistas largas (ao contrário da trupe de quatro norte-americanos muito "d'oh", saídinha de uma comédia teen de Hollywood); Adrian Mendez, guia, fotógrafo, artista e o homem mais contente do mundo ao descobrir um quetzal em Monteverde; Zack e Yuki, os estudantes (ele norte-americano, ela japonesa) que tomam conta do jardim de Borboletas; Beth, a sorridente norte-americana que trocou os States pela costa de Guanacaste e entrou no espírito das gentes (trabalha só às tardes e devagarinho)... Ah: para lá, a Cláudia Vieira; para cá, Gonçalo M. Tavares.

A viagem de regresso não se faz muito mal, porque se faz de noite. Mas decerto teria sido bem melhor se não fosse pela Iberia, eleita pela unanimidade dos passageiros com escala em Madrid como a pior companhia aérea de toda a história da aviação mundial. E Barajas, aeroporto a evitar para quem tiver de fazer escala em Madrid. A não ser quem goste de correr de um terminal para o outro e de passar duas vezes pelo controlo de bagagem e de quase perder aviões e de ficar horas à espera do vôo, perante o olhar arrogante e o sorriso pedante dos senhores da Iberia.
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04 agosto 2007 

Mas allá de Tramontana (notas de viagem)

O fantasma de Almodôvar assombrou o vôo de Madrid para Maiorca: duas horas de atraso, as hospedeiras mais feias do mundo, uma tripulação da concorrência entre os passageiros e uma viagem sem comida nem «plan de asentos».

Em Maiorca, a paciência não é uma virtude, é uma prática comum (um alentejano sentir-se-ia apressado em Maiorca).

Na rádio, um dos hits correntes é o hino oficioso da ilha: Patience, dos Take That. Esse, e o Umbrella de Rihanna (sem Jay-Z). No carro, ouve-se a Radio Flaixbac, a Radiomania, a Alcúdia FM e a concorrente Radio Balear (os estúdios destas últimas ficam bem no centro da belíssima vila de Alcúdia, uma de cada lado da igreja).

A parte sul de Maiorca é a mais concorrida, mas a mais desinteressante. O melhor da ilha está a norte, para lá da Tramontana.

Fornalutx é a aldeia mais bonita de Espanha. É o que vem nos livros. Mas cinco noites nesta aldeia perdida no meio da serra chegam para convencer que o rótulo não é exagero.

É em Fornatlutx que fica o melhor restaurante da ilha, o Ca' Antuna. Curiosamente, é também lá que fica o mais estranho restaurante da ilha, o Es Tambor Pages - um género de Fawlty Towers em versão quixotesca: o cozinheiro é um hippie reformado que não usa o braço esquerdo e que só consegue trabalhar a ouvir rock n'roll; e a cave é uma enorme sala vazia, provável cenário de um qualquer filme de terror maiorquino.

Ali perto fica a praia de Sa Calobra - a cobra. Percebe-se o nome: é preciso mais de uma hora para descer poucos quilómetros de curvas e contra-curvas e contra-contra-curvas. Mas uma vez lá em baixo, compreende-se o fascínio pela descida: a praia de Torrent de Pareis é uma das mais belas criações da natureza.

A vila de Deia não tem centro. Tem uma igreja e uma rua com restaurantes e lojas à beira da estrada. Mas ainda assim, vale a passagem. Uns quilómetros mais à frente fica Valdemossa, onde Chopin e George Sand passaram o seu Inverno em Maiorca. Mas os turistas vão lá é para visitar o restaurante de Michael Douglas.

Já Andratx (que também não tem centro) é a cidade mais feia da ilha. Seguida de perto por Pollença e Ses Salines.

Conduz-se muito mal em Maiorca. A polícia dá o exemplo: conduz ainda pior.

À beira da estrada, uma tabuleta: Son Amar - restaurante espectaculo.

Diz que a água de Font Sorda é «son cocó».

A gastronomia típica de Maiorca anda entre o pa amb oli, a ensaimada e as cocas de patata - o que quer que isso seja...

É muito difícil comer fora de Palma: ou há comida mas não há onde comer, ou há onde comer mas não há comida, ou há de tudo mas "só daqui a uma hora".

No centro de Palma, mesmo em frente ao Ajuntament, fica a melhor Dunkin' Donuts do mundo!

À saída de Palma há uma pequena cidade desportiva: tem um estádio de futebol, um complexo de piscinas, um pavilhão multidesportivo, um centro hípico e... uma penitenciária.

O maiorquino é uma mistura de catalão com castelhano, alemão, italiano e até português. E com um alto sentido de humor: azeite diz-se «oil»; óleo diz-se «aceite».

Em Maiorca bebe-se muito café. Aliás, é incrível como numa ilha tão pequena há tantas marcas diferentes de café (contámos pelo menos oito).

Até nos gelados a concorrência está ao rubro: enquanto a Eva Longoria nos vende Frigos, a Elsa Pataky impinge-nos Nestlés.

Manacor é a Paços de Ferreira lá do sítio: é a capital do móvel, mas com dinossaurios.

As Cuevas del Drach são grutas perfeitamente alienígenas e apaixonantes. Já o concerto a que, uma vez lá dentro, nos obrigam a assistir é a coisa mais inexplicavelmente idiota de que alguma vez algum agente turístico se possa ter lembrado.

E na última noite em Fornalutx, soa o alarme de incêndio! Começa a tornar-se um hábito...

Atenção: o que se come em Maiorca, fica em Maiorca.

No regresso, os computadores em baixo no aeroporto de Maiorca, o pior empregado de balcão do mundo e a companhia aérea mais simpática da Europa, a Air Nostrum. Basta isto: a sobremesa foi um gelado Haagen-dasz!

Ah, mas... não há nada melhor que um passeio de segway à beira-mar...
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25 abril 2007 

World wide web (notas de viagem)

Por mais que a coisa seja já usual, ainda é agradável olhar para a montra de uma grande cadeia espanhola de lojas no centro de Madrid e ver, em destaque, The Gift e José Saramago.

Por mais que a coisa seja lá usual, é estranho - para não dizer absurdo - ir a Madrid fazer entrevistas a artistas norte-americanos e ter que levar com o tradutor: os jornalistas espanhóis podem até saber falar inglês, mas não o falam nem com os ditos artistas norte-americanos. Resumindo: em entrevista de grupo (uma dúzia de espanhóis e dois ou três portugueses), perde-se metade do tempo com a tradução.

Por mais que a coisa não seja já inédita, sabe bem ouvir um actor norte-americano lembrar o avô português (e de caminho, dizer a um certo espanhol que passou a tarde toda de nariz ao alto que o apelido dele - deles - não é espanhol, é português)...
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25 março 2007 

New York report: dia 10 (notas de viagem)

Depois de um alarme de incêndio, de uma piscina de neve na cama, de um homicídio à porta… o último dia começa com um chuveiro nas trombas… Certo. É para a estória. Siga, que o pequeno-almoço é no Tom’s Restaurant, o tal do Seinfeld, o tal que Suzanne Vega cantou, o tal que cobra cinco dólares só para sentar à mesa!
Ala. Último passeio, últimas andanças, últimas montras, últimas compras, último almoço no Big Bowl O’Noodles (o restaurante chinês que serve mesmo big bowls o’noodles). E o última surpresa: na mesa ao lado, a pagar a conta, Rufus Wainwright! New York, New York… Bye bye, NY.
Partida. Hora e meia de metro. Mais 12 horas de viagem, Déjà Vu, Amesterdão, Lisboa. E por cá, same old, same old...
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New York report: dia 9 (notas de viagem)

...que afinal, a airbed estava furada…
Anyway, siga para midtown e para a Midtown Comics – um primeiro e um segundo andares que são o paraíso de qualquer fã da coisa. A onda é de passeio e em velocidade de cruzeiro passa-se o dia entre a Union Square e a Broadway.
Para a cereja em cima do bolo, para o desfecho em alta da ventura, o regresso a Times Square: finalmente Spamalot! E enfim, o desânimo: será do cansaço, do anunciado fim das férias, do excesso de expectativa, de termos visto o Avenue Q antes, de sermos talvez demasiado fãs dos Monty Python que a coisa soa tão menos genial e hilariante do que sonháramos?
Para a desilusão, apenas um remédio: a Virgin!
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Phila / NY report: dia 8 (notas de viagem)

De manhã, a confirmação: Filadélfia é uma cidade lindíssima, com história e arte à espreita em cada esquina. Nas notícias, coisas bizarras: há coelhos abandonados para oferecer na Páscoa e uma fábrica de comida para animais terá envenenado centenas de pets.
A visita ao Liberty Bell – o símbolo da liberdade norte-americana, que está partido (só estava rachado, mas quando o tentaram arranjar, estragaram ainda mais – lembra qualquer coisa) – e à “most historical room in the most historical building in the most historical square mile of America” (a sala onde foi assinada a Declaração da Independência), apresentada por um guia com ares de pai natal misto de duende irlandês que trata George Washington por “George W the 1st”.
À tarde, a tour da praxe, com passagem por Elfreth’s Alley (“the oldest street in America”), pelo LOVE de Robert Indiana, pelos Campos Elísios, pelo Rocky e por um museu com uma exposição curiosa: “The scoop on poop”!
Final do dia, ala que se faz tarde: chove e há que regressar a NY. No rádio, há de tudo – brasileirada, jazz, talk-shows, world music, música clássica, notícias em espanhol…
E de novo Nova Iorque. E um sentimento de overjoy ao conduzir pela Broadway acima e pela 5ª avenida abaixo. E descobrir que, afinal, nem tudo é direito, recto e quadrado em NY: há duas rotundas e mais ruas que sobem e descem…
Noite em Nova Iorque, passeio por midtown, com passagem pela casa do Tribeca Film Festival de Robert de Niro, pela rua que deu nome ao Wooster Group de Willem Dafoe e pelo primeiro R2D2 disfarçado de caixa de correio. Mas o melhor ainda estava para vir…
De volta ao Sugar Hill, chove no quarto, há um lago na cama… Chamada para o Jeremy que, a dormir, promete solução. Uma hora e tal depois, circuito eléctrico cortado, estamos todos num telhado do Harlem a limpar a neve. Lá para as quatro, a coisa compõe-se: há um quarto a mais para a troca e um sofá-cama… se calhar não, talvez uma airbed para solucionar. For now…
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DC / Phila report: dia 7 (notas de viagem)

Antes de partir para Filadélfia, uma visita ao Museu de História Natural. Pelo caminho, não há cafés, não há nada… Há um Starbucks num hotel. Tinha que ser qualquer coisa assim. À porta do Museu, o officer Bolte diz-nos que adora Lisboa. É casado com uma portuguesa e revela que ali ao lado, em Manassas, há 19 mil lusos! Siga para o Museu, que na rua estão graus negativos. Trilobites. Stromalobites e “great coffee with a pre-historic view”. Cynognathus, dyatryma steini, protosciunus, edentates, glyptodont, muskrat, wolly mammoth e os deuses do Candomblé. O afropop, os sikhs e os cinco K’s da Khasa. Morganucodon oehleri, galago moholi, anomalurus derbianus, vulpes zerda, jaculus jaculus e os Darwin awards. Curioso: ontem tocámos na Lua, hoje tocámos em Marte e na pedra mais antiga da Terra.
On we go que se faz tarde! Antes da fugida, visita (porque não?) aos estúdios da NPR (a RDP americana) – afinal, somos colegas… bem recebidos e… um programinha em português, não?
Regresso ao hotel para levantar malas e pegar o carro e Gilberto Gil! Que surpresa, somos portugueses, somos fãs, e agora, se não te importas, vou… andando.
De volta à estrada, hoje não neva e a viagem faz-se. Filadélfia está aí e sabe bem: à noite, cheia de neve, a cidade recebe-nos, acolhedora.
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DC report: dia 6 (notas de viagem)

Em Washington, à primeira vista, não há cafés. Nem restaurantes, nem comércio. Sempre há um Starbucks no hospital. O metro é espacial, cenário de sci-fi. Hoje é dia de museus, que em Washington são de borla. Pela manhã, o do Holocausto, excelente museu, bem pensado, mas o Aristides Sousa Mendes está escondido num canto discreto. Pela tarde, o Air & Space Museum, enorme e cheio como um centro comercial, mas recheado de aviões, naves, mísseis, filmes e coisas para criança adorar e turista fartar. Pelo fim do dia, passeio pelo Mall: o obelisco, o Lincoln Memorial, os memoriais da Segunda Guerra Mundial e das guerras da Coreia e do Vietname e a Casa Branca, já de noite. E ao frio.
Para lavar a imagem de uma cidade feia e fria, uma passagem por Georgetown: sábado, a town está cheia – é noite de St. Patrick.
Pela madrugada, o insólito: toca o alarme de incêndio! O susto, as botas, a saída para a rua, os pensamentos desagradáveis e os bilhetes do regresso que ficaram no quarto… Três da manhã de uma manhã gélida: dezenas de pessoas na rua, à porta do hotel e os bombeiros a chegar. Não há fumo, haverá fogo?
Meia hora passada, diz que não, é falso alarme, é voltar para cama. Adormecer de novo e… de novo o alarme. É para sair outra vez? Olhe que não, olhe que não. É dormir. E de novo, o alarme. E outra vez. E outra. E ainda outra vez. E quando toca o despertador, passou-se a noite em branco. Maldita Washington, cidade da má ondinha.
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B.I.

Coisas Breves

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